Bourbon Rosa
Agora volta com um processo mais elaborado, uma produtora diferente e tudo o que fez dele um sucesso. Quem provou sabe. Quem não provou, tem uma segunda chance.
Doce, floral, toranja, ponkan, mel, casca de laranja caramelizada, suco de laranja com morango, especiarias, cardamomo e pimenta rosa. Corpo aveludado, acidez cítrica refrescante e finalização doce e prolongada.
O Bourbon Rosa retorna. A variedade já esteve aqui em 2024, nas mãos de Gabriel Lamounier, e deixou uma marca. Desta vez, é Elisa quem conduz o lote, com um processo mais elaborado e um perfil ainda mais expressivo. Não é repetição. É evolução.
A variedade Bourbon Rosa, também conhecida como Pink Bourbon, é uma das mais raras e admiradas do universo do café especial na atualidade.
Diferente da história contada durante anos, sua origem hoje é vista com mais mistério do que certeza. Por crescer em meio a Bourbons Vermelho e Amarelo, em lavouras de Huila, na Colômbia, a planta foi inicialmente entendida como um cruzamento espontâneo entre essas variedades. O nome Bourbon Rosa permaneceu, mas análises genéticas recentes trouxeram uma virada: o Pink Bourbon não pertence geneticamente à família Bourbon e se aproxima de variedades locais etíopes, variedades locais e silvestres ligadas à biodiversidade natural do café.
Essa descoberta amplia sua raridade. O que antes parecia apenas uma mutação de cor passou a representar uma história de identidade equivocada, seleção de produtores e mistério genético: ainda não se sabe exatamente como uma linhagem de origem etíope chegou aos cafezais colombianos e passou a ser cultivada como Bourbon Rosa.
No campo, essa singularidade exige cuidado. Para preservar sua identidade, o cultivo pede isolamento de outras variedades, manejo rigoroso e colheita manual precisa, com seleção apenas das cerejas no ponto ideal de maturação rosada. Na xícara, esse cuidado se traduz em uma bebida reconhecida pelo conjunto de florais, doçura, frutas e acidez brilhante – atributos que fizeram o Pink Bourbon ganhar espaço entre torrefadores, competições e consumidores do café especial.
Seus frutos rosados, posicionados entre o vermelho e o amarelo, são a assinatura visual de uma planta exigente, de baixa produtividade e perfil sensorial complexo. Reconhecida mundialmente nas competições de barismo, a variedade exige manejo preciso do campo à xícara.
Cultivada a 1.099 metros de altitude, esta edição passa por dupla fermentação conduzida em duas etapas distintas: primeiro natural, depois descascado. Cada fase constrói uma camada diferente de complexidade. A secagem lenta em terreiro suspenso, que pode levar até 40 dias, preserva a integridade aromática do grão e estabiliza os açúcares desenvolvidos ao longo de todo o processo. A torra clara fecha o ciclo sem interferir, revelando a variedade em seu estado mais puro.
Na xícara, a entrada é floral e delicada, com notas de toranja, ponkan e mel que se abrem com elegância. A casca de laranja caramelizada e o suco de laranja com morango trazem profundidade frutada. As especiarias chegam em seguida: cardamomo, pimenta rosa, sutis e precisas. O corpo é aveludado, a acidez cítrica conduz a bebida com frescor e a finalização é doce, longa e refrescante.
90 pontos. Uma variedade rara, um processo elaborado, uma produtora que sabe o que faz. E uma xícara que não esquece quem prova.
POR TRÁS DO NOME & DESIGN
Existe a cor certa pra um café raro?
Quando peguei o briefing do Bourbon Rosa, sabia que precisava começar por algo diferente. Rosa é a cor que mais pode dar errado num pacote de café. Vira brinquedo, vira dia dos namorados, vira qualquer coisa menos raridade. E eu tinha nas mãos uma das variedades mais buscadas do café especial hoje. Não podia deixar o rosa entregar menos do que a xícara ia entregar depois.
São momentos que a gente precisa ir pro cupping antes de abrir o Illustrator. Era o único jeito honesto de começar. Sentar, provar, escutar o que o café tinha a dizer. E o que ele disse foi outra coisa: floral, mas com peso. Cítrico, mas maduro. Doce, mas com especiaria escondida no fim. Não era um rosa qualquer, tinha que ser vivido. Ali comecei a enxergar o desenho.
Voltei pra mesa com uma imagem na cabeça: fruta madura por dentro. Puxei os vermelhos profundos primeiro, aqueles que estão no fundo da cereja quando ela já passou do ponto de brilho. Vinho, cassis, hibisco. Cores com camada, com corpo, com espessura. Deixei o rosa vir como consequência desses tons, não como protagonista solto. Rosa amadurecido, adulto, filho de vermelhos mais escuros.
O degradê veio dessa mesma lógica. Comecei do vermelho quase preto no fundo e fui abrindo até o coral mais quente na frente, deixando a luz atravessar como quem faz um licor pingar em taça de vidro. A fotografia pediu luz baixa, sombra teatral, quase cinematográfica. Nada de estúdio limpo, nada de fundo neutro. Queria que o pacote parecesse posado num pequeno palco escuro, iluminado só onde precisava.
Ao redor, montei uma natureza-morta com os elementos que o próprio café tinha me sussurrado durante o cupping. Ponkan descascada com a polpa exposta, porque a fruta apareceu clara na xícara e porque descascar é um gesto que combina com o clima de intimidade que eu queria. Anis-estrelado e cardamomo pra ancorar a especiaria da finalização. E a pimenta-rosa espalhada pela mesa, que virou minha coadjuvante favorita da composição: mesma cor do nome do café, mas com sabor floral e discreto. Um pequeno segredo dentro do enquadramento.
O selo dourado sobre o vermelho vinho da etiqueta foi o último gesto. Detalhe pequeno, quase escondido, do jeito que raridade se apresenta quando não precisa se explicar. Ouro que não brilha, só assina.
Fechei o projeto imaginando o pacote em cima da bancada de alguém. Não numa vitrine de loja, mas num cantinho do café de casa, entre a xícara favorita e o moedor. Cafezeiro apaixonado por raridade, aquele tipo de pessoa que pesquisa origem, guarda as embalagens, mostra pros amigos. Era pra essa pessoa que eu tava desenhando. Não pra impressionar de longe, pra ser bonito de perto.
E quando você abrir e colocar a primeira colher no moedor, vai reconhecer o que o design já tinha desenhado antes: o floral que ficou no vinho da etiqueta, a ponkan que estava ali na foto, o mel escondido no dourado do selo, a casca de laranja cristalizada nos coral quentes do degradê, a especiaria fina na pimenta-rosa espalhada pela mesa. Uma xícara que já foi olhada antes de ser bebida.
PRODUTOR
Elisa Paiva Lamounier
TERROIR
GUARIROBA
VARIEDADE
BOURBON ROSA
PROCESSO
Dupla Fermentação
CURIOSIDADES
– Variedade rara Pink Bourbon de genética singular: Com origens etíopes, essa variedade de manejo cuidadoso e baixa produtividade é uma das favoritas em campeonatos mundiais. Ela entrega um perfil sensorial altamente complexo na xícara, destacando-se por notas florais, cítricas, muita doçura e uma acidez vibrante
– Terroir premiado da Fazenda Guariroba: Cultivado na região de Campos das Vertentes (MG), que possui Indicação de Procedência, clima ameno e altitudes de até 1.200m. A fazenda é comandada pela quinta geração da família, ostenta o título de campeã do Cup of Excellence e é famosa por microlotes históricos que ultrapassam os 90 pontos
Dados Técnicos
| NOTA SCA | 90 PTS |
| SAFRA | 2025/2026 |
| ALTITUDE | 1.099m |
| TORRA | CLARA |
| DOÇURA | |
| ACIDEZ | |
| CORPO | |
| AMARGOR |






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