Le Nez du Café: a ferramenta que cria um alfabeto sensorial para você decifrar qualquer xícara de café

Conheça o Le Nez du Café, a ferramenta oficial de treinamento sensorial com 60 aromas. Descubra por que seu olfato é a chave para sentir tudo na xícara.

INTRODUÇÃO

Você abre um pacote de café especial, lê “notas de framboesa, tangerina e jasmim” na embalagem, prepara a xícara com todo o cuidado… E sente gosto de café. Só café. Já passou por isso? Se sim, calma — você não está fazendo nada errado. E não, a marca não está mentindo. O que acontece é que a sua biblioteca sensorial ainda não tem todas as “letras” que precisa para ler o que a xícara está dizendo.

É exatamente para resolver esse problema que existe o Le Nez du Café — uma ferramenta de treinamento sensorial profissional que isola os aromas encontrados no café em ampolas individuais, como se fosse um verdadeiro alfabeto olfativo. E aqui, a gente não só testou como colocou o nosso olfato à prova, ao vivo, num desafio às cegas que rendeu acertos surpreendentes… E erros que ensinaram ainda mais.

Neste artigo, vamos mostrar como o Le Nez du Café funciona, por que ele foi criado, o que mudou na versão atualizada com 60 aromas, e como você pode usar a ciência do olfato para transformar a forma como sente cada gole de café especial. E sim: vamos explicar por que o café é cientificamente mais complexo que o vinho!

 

 

Por que você não consegue sentir as notas da embalagem (ainda)

Quando você lê “notas de tangerina” num pacote de café e não sente nada parecido, existem basicamente duas explicações. A primeira — e mais provável — é que a referência simplesmente não está fresca na sua memória olfativa. Pense: quando foi a última vez que você descascou uma tangerina, parou, e prestou atenção no aroma que ela libera? Na maioria das vezes, a gente come sem registrar conscientemente esse tipo de informação.

A segunda possibilidade é fisiológica. Se você está resfriado, congestionado ou com qualquer obstrução nasal, seu olfato está comprometido — e como vamos ver adiante, o olfato é responsável por cerca de 80% a 90% da formação do sabor. A língua detecta apenas os gostos básicos: doce, ácido, amargo, salgado e umami. Todo o resto — aquilo que a gente chama de “sabor” — vem do nariz.

É por isso que o treinamento sensorial não é luxo de sommelier ou Q-Grader — é uma ferramenta prática pra qualquer pessoa que quer realmente entender o que está na xícara.

 

 

O que é o Le Nez du Café

O Le Nez du Café (em tradução livre, “O Nariz do Café”) é um kit de treinamento sensorial criado na França que contém ampolas com aromas isolados — concentrações olfativas de substâncias que são naturalmente encontradas em grãos de café. Cada ampola funciona como uma espécie de “óleo essencial” daquele aroma específico, permitindo que você sinta, identifique e memorize cheiros de forma isolada.

O kit é apresentado no formato de livros — e a analogia não é acidental. Assim como livros ensinam letras que depois formam palavras e frases, o Le Nez du Café ensina aromas individuais que, depois, você reconhece misturados dentro de uma xícara de café. Cada “livro” corresponde a uma família aromática: florais e frutados, fermentados e verdes, herbais, tostados, doces, castanhas e especiarias.

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Dentro de cada livro, no lugar de páginas, estão as ampolas numeradas. Ao lado, cartilhas que identificam o aroma pelo número e trazem um aprofundamento técnico: a origem daquele composto no café, suas características olfativas e em quais variedades ou processos ele costuma aparecer. É uma ferramenta completa, não apenas um jogo de adivinhação.

O Le Nez du Café é utilizado em contextos profissionais — torrefações, laboratórios de cupping, cursos de barismo — mas nada impede que entusiastas do café tenham o kit em casa. Aliás, ele funciona muito bem como uma experiência social: reunir amigos em volta das ampolas para tentar adivinhar os aromas é divertido e genuinamente educativo.

 

 

A história por trás do kit: do vinho ao café

A história do Le Nez du Café começa, curiosamente, longe das cafeterias. Jean Lenoir, seu criador, não era cientista de aromas, nem enólogo, nem profissional do café. Era professor de cultura — um homem profundamente curioso e apaixonado pelo universo sensorial. E como o Gabriel costuma dizer, pessoas muito cultas tendem a ter um leque sensorial amplo, porque buscam experiências em diversas frentes.

Lenoir começou dando cursos de degustação de vinho na França e percebeu que as pessoas tinham enorme dificuldade de colocar nomes nos aromas que sentiam. Não era falta de olfato — era falta de vocabulário, de referência, de treino. Foi aí que ele decidiu isolar os aromas do vinho em ampolas, criando uma ferramenta que permitisse às pessoas aprender a ler o que estavam sentindo.

Em 1981, nasceu o Le Nez du Vin — a primeira ferramenta de aromas, voltada para o vinho. O sucesso foi imediato e internacional. Em 1996, Lenoir foi convidado pela Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia para visitar as regiões produtoras e conhecer a complexidade por trás de uma xícara de café. O objetivo era claro: desenvolver uma ferramenta equivalente para o universo do café.

Em apenas um ano de pesquisa, trabalhando ao lado do engenheiro bioquímico David Guermonprez e do provador Eric Verdier, Lenoir lançou o primeiro Le Nez du Café com 36 aromas — apresentado oficialmente na Colômbia em outubro de 1997. Desde então, o kit se tornou referência mundial e peça obrigatória na certificação Q-Grader, a mais alta credencial de avaliação sensorial de café reconhecida pela SCA.

Jean Lenoir faleceu em 2023, mas seu legado segue vivo. Sua filha, Viva Lenoir, assumiu a direção da editora e conduziu a atualização mais significativa do kit desde sua criação.

 

 

De 36 para 60 aromas: o que mudou na versão atualizada

A versão original do Le Nez du Café, com 36 aromas, serviu a comunidade global de café por quase três décadas. Mas o café mudou — e muito. Novos processos de pós-colheita, especialmente as fermentações controladas que ganharam força nos últimos anos, trouxeram aromas e sabores inéditos para as xícaras. Variedades exóticas, terroirs antes inexplorados e técnicas de torra mais sofisticadas ampliaram o vocabulário sensorial do café de forma significativa.

A versão atualizada, o Le Nez du Café 2.0, traz 60 aromas — 15 a mais que a versão original. E aqui tem um detalhe importante: 15 desses aromas são formulações inteiramente novas, desenvolvidas especificamente para análise sensorial de café e que não existem em nenhum outro kit Le Nez. Os demais aromas adicionais já eram encontrados em outros kits (como o do vinho ou do whisky) e foram incorporados ao do café porque se mostraram relevantes.

Além disso, os 36 aromas originais foram revisados e reformulados para maior precisão e estabilidade — as ampolas mantêm a consistência mesmo após uso repetido.

Outro marco dessa atualização é a inclusão de aromas específicos para canéfora (robusta). Pela primeira vez, provadores podem treinar com marcadores olfativos que representam essa espécie — algo crucial num momento em que a canéfora ganha espaço no mercado global, tanto pela resistência climática quanto pela evolução de qualidade em países produtores como o Brasil e o Vietnã.

A atualização foi realizada em parceria com o Coffee Quality Institute (CQI) e contou com a contribuição de Emma Sage, que assinou o guia ilustrado de 96 páginas que acompanha o kit.

Os 60 aromas estão organizados em nove famílias aromáticas:

  • Florais e frutados: mel, chá preto, rosa, jasmim, framboesa, mirtilo, groselha negra, morango, uva-passa, ameixa, cereja, abacaxi, manga, melão, banana, maçã, pêssego, laranja, limão, lima
  • Ácidos/fermentados, verdes/vegetativos e outros: ácido butírico, vinho, polpa de café, vagem de ervilha, grama fresca, pepino, pimentão verde, feno, tomilho, pinho, cedro, batata, caixa de papelão, madeira, mofo/úmido, terra, couro, medicinal, asfalto
  • Tostados, especiarias, castanhas/cacau e doces: borracha, tabaco, defumado, manteiga, torrada, malte, pimenta, anis estrelado, noz-moscada, canela, cravo, amendoim, avelã, amêndoa, noz, chocolate amargo, chocolate, açúcar mascavo, maple syrup, caramelizado, baunilha
 

 

Café vs. vinho: qual bebida é mais complexa?

Essa é uma das comparações mais fascinantes do universo gastronômico — e a resposta tende a surpreender quem vem do mundo dos vinhos.

O vinho é tradicionalmente considerado a bebida mais complexa do mundo. E de fato, ele carrega uma riqueza sensorial impressionante, com mais de 1000 compostos voláteis já identificados pela ciência. Mas o café também ultrapassa a marca dos 1000 compostos voláteis — e, segundo parte da literatura científica, pode ir além. A diferença é que o café passa por uma etapa que o vinho não tem: a torra. Enquanto o vinho depende da fermentação alcoólica para desenvolver sua complexidade, o café soma fermentação (no processamento pós-colheita) mais a pirólise e as reações de Maillard que acontecem durante a torrefação. É nessa etapa que centenas de novos compostos se formam — pirazinas, furanos, aldeídos, fenóis voláteis — ampliando exponencialmente o espectro aromático.

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Uma pesquisa relevante da Technical University of Munich identificou mais de 1000 compostos voláteis no café torrado, embora apenas cerca de 40 contribuam de forma significativa para o aroma percebido na xícara. Isso reforça que a complexidade do café não está só na quantidade de compostos, mas na forma como eles interagem entre si para criar perfis sensoriais únicos.

O próprio Gabriel destaca isso no vídeo: o café pode ultrapassar os 1000 voláteis sensoriais, enquanto o vinho fica na faixa de 700 a 1000. São números que variam conforme a fonte e a metodologia, mas o consenso científico aponta que ambas são bebidas de complexidade extraordinária — e o café, graças à torra, tem uma carta na manga que amplia significativamente seu vocabulário aromático.

 

 

Como o olfato domina o sabor: a ciência por trás da xícara

Existe um mal-entendido muito comum quando falamos em “sabor”: a maioria das pessoas acredita que sente os sabores na língua. E tecnicamente, até sente — mas só os gostos básicos. A língua é equipada com papilas gustativas que detectam cinco sensações: doçura, acidez, amargor, salgado e umami. São informações imediatas, brutas, que funcionam como um primeiro filtro.

O que chamamos de sabor, no entanto, é uma construção muito mais sofisticada do cérebro. Estudos na área de neurogastronomia apontam que o olfato é responsável por 80% a 90% da percepção do sabor dos alimentos. Quando você toma um café e identifica “notas de chocolate e caramelo”, quem está fazendo esse trabalho é o seu sistema olfativo — não as papilas.

É por isso que, quando estamos resfriados, tudo parece “sem gosto”. O sistema gustativo continua funcionando — você ainda percebe se algo é doce ou amargo — mas sem o olfato, a camada de complexidade desaparece. Como o Gabriel comparou no vídeo: é como tentar ler um texto com a visão embaçada. Você percebe que tem alguma coisa escrita, mas não consegue decifrar o que diz.

 

 

Ortonasal e retronasal: as duas formas de sentir aroma

Quando falamos em olfato no contexto da degustação de café, estamos falando de dois caminhos distintos que os compostos aromáticos percorrem até chegar aos receptores no nariz:

A percepção ortonasal é a mais intuitiva — é quando você cheira o café diretamente pela narina. Aquele momento em que aproxima a xícara do nariz e sente o aroma subir: isso é via ortonasal. É o primeiro contato, a “entrada da história”.

A percepção retronasal é menos óbvia, mas muito mais poderosa para a composição do sabor. Ela acontece durante e após a ingestão: quando você engole o café, moléculas voláteis são empurradas da boca para a cavidade nasal por trás do palato — como uma “chaminé interna”. É ali, nessa região chamada de fenda olfativa posterior, que os receptores captam a maior parte das informações aromáticas que compõem o sabor.

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É também por isso que a técnica de cupping (prova profissional de café) utiliza a aspiração com colher: ao puxar o líquido de forma rápida e dispersa, o provador cria uma espécie de aerosol dentro da boca que maximiza a ativação retronasal. Quanto mais moléculas voláteis chegam a esses receptores, mais informações o cérebro processa — e mais detalhada fica a “leitura” do café.

O ser humano possui entre 350 e 400 tipos diferentes de receptores olfativos. Cada pessoa tem uma composição ligeiramente distinta, influenciada pela genética — o que explica por que algumas pessoas têm mais facilidade com certos aromas do que outras. Mas a boa notícia é que, independentemente da genética, o olfato é treinável. E é exatamente isso que o Le Nez du Café propõe.

 

 

Como usar o Le Nez du Café na prática

O treinamento com o Le Nez du Café segue uma lógica simples — e muito parecida com o que fazemos na escola quando aprendemos a ler:

Passo 1: Isolar. Pegue uma ampola aleatória, vire de cabeça para baixo (o líquido é oleoso, tipo um óleo essencial), e cheire a tampinha. Feche os olhos.

Passo 2: Buscar na memória. Tente identificar o que está sentindo. Onde você sentiu esse cheiro pela última vez? Que imagem vem à cabeça? É uma fruta? Uma especiaria? Algo que você comeu na infância?

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Passo 3: Chutar. Dê um nome ao aroma. Não tenha medo de errar — o objetivo é exercitar o processo de associação.

Passo 4: Conferir. Veja o número da ampola e procure a cartilha correspondente. Leia a descrição técnica, a família aromática e a origem no café. A partir desse momento, você “arquivou” aquele aroma na sua memória de forma consciente.

Passo 5: Repetir. Como qualquer treino, a constância é o que gera resultado. Quanto mais vezes você sentir e identificar um aroma isolado, mais fácil será reconhecê-lo quando ele aparecer misturado com outros dentro de uma xícara.

O kit também vem com uma caixinha para montar um jogo de memória olfativa: você tampona os números das ampolas, organiza por família (cada uma tem uma cor), e se desafia a identificar sem a referência visual. É aí que a brincadeira fica realmente boa.

Dica: Se você quer começar a treinar seu olfato sem investir no kit completo, um exercício poderoso é simplesmente prestar atenção nos cheiros do cotidiano. Descasque uma fruta e pare para sentir. Abra um pacote de especiarias e registre. Sinta o aroma do café moído antes de preparar. Cada experiência consciente alimenta o seu repertório.

 

 

O teste às cegas: acertamos ou erramos?

Para colocar o Le Nez du Café à prova — e o nosso próprio olfato — fizemos um teste prático. O “mãozinha” separou sete ampolas aleatórias de diferentes famílias aromáticas e o Gabriel tentou identificá-las sem ver o número. O resultado:

Acertos:

  • Jasmim — memória fresquíssima, porque recentemente lançamos um café com perfil floral de jasmim e o Gabriel trouxe chá de jasmim e outras referências para a equipe durante o processo de curadoria
  • Couro — associação imediata com uma bota de couro que ele tinha manuseado nos dias anteriores
  • Cravo — referência universal: arroz doce, beijinho de festa, especiaria do cotidiano
  • Malte — irônico, mas impossível de errar quando se vive cercado de café fermentado
  • Abacaxi — outra memória fresca, reforçada por um sorvete de abacaxi do dia anterior

Erros:

  • Chá preto — Gabriel identificou “algo de chá” no início, mas trocou o chute para mel no meio do caminho. A cartilha confirmou: chá preto. O instinto estava certo, mas a segunda opinião atrapalhou.
  • Caixa de papelão — esse surpreendeu todo mundo. O Gabriel não conseguiu associar, mas depois de revelado o aroma, a conexão neural veio instantaneamente: “caramba, é mesmo!”. Como ele mesmo brincou: “Se eu tivesse usado o racional de já ter comido papel na escola, talvez lembrasse”.

Resultado final: 5 acertos em 7. Um desempenho sólido, que comprova um ponto central: aromas ligados a experiências recentes e marcantes são muito mais fáceis de identificar. O jasmim estava fresco porque virou tema de trabalho. O cravo é onipresente na culinária brasileira. O chá preto e a caixa de papelão, por outro lado, são coisas que a gente conhece mas não memoriza intencionalmente — e é exatamente esse gap que o treinamento preenche.

 

 

Aromas curiosos que você não esperava encontrar no café

Uma das partes mais surpreendentes do Le Nez du Café é a diversidade de aromas que a gente não associa intuitivamente ao café. Isso acontece porque esses compostos estão presentes de forma sutil e misturada — você nunca vai sentir “gosto de asfalto” num café, mas o composto volátil responsável por aquele cheiro pode estar lá, contribuindo para a complexidade geral do perfil sensorial.

Alguns destaques que chamaram atenção no nosso teste:

Asfalto/piche — O aroma da lama asfáltica quente. Na primeira vez que o Gabriel sentiu, associou com borracha. Mas a borracha tem ampola própria, com aroma diferente. A conclusão: asfalto é como uma “borracha quente fritando”. É um dos aromas mais inusitados do kit.

Caixa de papelão — Parece absurdo, mas existe e é identificável. No contexto do café, está relacionado a aromas da família dos herbais e aparece especialmente em canéforas e em cafés com algum grau de envelhecimento.

Medicinal — Aquele cheiro de éter, de hospital, de acetona. Cada pessoa vai para um lado diferente quando sente esse aroma, mas ele existe em determinados cafés e é um marcador importante para provadores profissionais.

Vinho — Sim, o vinho é um aroma isolado dentro do kit de café. Faz total sentido quando pensamos nos cafés fermentados que ganharam protagonismo nos últimos anos: processos como a fermentação anaeróbica podem produzir compostos que remetem diretamente ao aroma vínico.

Mel — E aqui vem uma curiosidade que o próprio Gabriel desmistificou: muita gente do mercado de café associa o mel a um perfil de doçura. Na verdade, o mel é classificado como um aroma floral. Então, sempre que você identificar mel na xícara, pode descrever aquele café como tendo notas florais de mel — uma distinção sutil, mas que faz diferença na análise técnica.

Rosa — Ninguém espera encontrar nota de rosa vermelha num café, mas ela está lá. Entra na classificação floral e aparece especialmente em variedades etíopes de altitude elevada e em certos processos de fermentação natural.

 

 

Genética, memória e bloqueio: por que cada pessoa sente diferente

Uma pergunta que sempre surge em treinamentos sensoriais: “por que eu não sinto o que ele sente?” A resposta envolve uma mistura de genética, experiência de vida e até preferências pessoais.

Genética: Cada pessoa possui uma configuração ligeiramente diferente de receptores olfativos. Algumas pessoas têm maior sensibilidade natural a determinados compostos — é quase um superpoder. Isso está ligado ao DNA, à herança familiar e até à exposição a estímulos na infância. Uma criança cujos pais ofereciam uma variedade grande de alimentos tende a desenvolver um repertório sensorial mais amplo, mesmo que de forma inconsciente.

Memória e experiência: Sensorial é, antes de tudo, experiência de vida. Quanto mais coisas você já vivenciou, provou, cheirou, mais referências tem o seu cérebro para fazer conexões. É por isso que o Gabriel acertou cravo de olhos fechados — a lembrança de arroz doce e beijinho de aniversário é universal pra quem cresceu no Brasil.

Bloqueio sensorial: E aqui entra um ponto fascinante. Se você rejeita um determinado alimento ou aroma — “não gosto de pepino”, “tenho alergia a perfume floral”, “não suporto giló” — o que você está comunicando ao seu cérebro é: bloqueie essa informação. Os receptores associados àquela família de aroma ficam, por assim dizer, “desativados” por falta de estímulo. O resultado? Quando um café tem uma nota floral, por exemplo, você simplesmente não consegue detectá-la — não porque ela não existe, mas porque o seu receptor está “adormecido”.

A boa notícia? Isso é reversível! Com treinamento consciente e exposição repetida, esses receptores podem ser “reativados”. É um processo gradual, mas perfeitamente possível. E é exatamente esse o objetivo de uma ferramenta como o Le Nez du Café: ir calibrando, uma ampola de cada vez, a sensibilidade do seu olfato.

 

 

Le Nez du Café vs. Roda de Sabores: qual a diferença?

Se você já conhece a Roda de Sabores do café, pode estar se perguntando: são a mesma coisa? Não — são ferramentas complementares que se cruzam e se reforçam.

A Roda de Sabores da SCA (Specialty Coffee Association) é um guia visual baseado no Léxico do Café, um estudo que mapeou 110 características de sabor, aroma e textura encontradas no café. Ela funciona como um mapa: você parte do centro (sabores genéricos) e vai refinando para as bordas (sabores específicos). É usada principalmente durante sessões de cupping para classificar e descrever o perfil de um café.

O Le Nez du Café é uma ferramenta de treinamento olfativo. Em vez de descrever visualmente os sabores, ele faz você sentir fisicamente cada aroma, isolado, repetidamente, até que a memória olfativa se solidifique. É uma abordagem prática, tátil — ou melhor, nasal.

Na prática, uma ferramenta alimenta a outra. O Léxico e a Roda dão o vocabulário e a estrutura. O Le Nez dá a experiência sensorial direta para que aquele vocabulário faça sentido no seu corpo. Juntos, eles formam o sistema mais completo de educação sensorial disponível para café.

Se você quer entender melhor como usar a Roda de Sabores no dia a dia, temos um artigo completo sobre como utilizar a Roda de Sabores aqui no blog — e ele é o complemento perfeito para este conteúdo. Se preferir, também pode assistir ao vídeo completo no youtube!

 

 

Onde comprar o Le Nez du Café e quanto custa

No Brasil, o importador oficial do Le Nez du Café é a De La Croix Vinhos, um distribuidor e restaurante de vinhos franceses localizado em São Paulo, no bairro dos Jardins. Eles oferecem o Le Nez do café, do vinho, do whisky e outros kits da família Éditions Jean Lenoir.

O valor atual do Le Nez du Café 2.0 (60 aromas) gira em torno de R$ 2.800. [verificar: confirmar preço atualizado diretamente com De La Croix ou no site antes de publicar]

Sim, é um investimento significativo. Mas é uma ferramenta profissional desenvolvida para durar — as ampolas mantêm estabilidade aromática por anos se armazenadas corretamente (longe da luz direta e de odores fortes). Para torrefações, cafeterias de especialidade, escolas de barismo e produtores que participam de concursos, o kit se paga rapidamente em precisão de avaliação e formação de equipe.

Para quem está se preparando para a certificação Q-Grader, o Le Nez du Café é item praticamente obrigatório: uma das provas da certificação avalia especificamente a capacidade do candidato de identificar aromas isolados. Saiba mais sobre o que é Q-Grader e sua importância no mercado de cafés especiais.

 

 

Vale a pena investir no Le Nez du Café?

Depende de quem você é e de até onde quer ir.

Se você é profissional do café — barista, torrador, provador, produtor, dono de cafeteria — o Le Nez du Café é uma das ferramentas mais eficientes que existem para calibrar o olfato e padronizar a linguagem sensorial da sua equipe. Em ambientes onde a consistência de avaliação é crucial (laboratórios de cupping, controle de qualidade, competições), o kit é indispensável.

Se você é um entusiasta avançado — aquele coffee geek que já tem moedor de precisão, vários métodos de preparo e assina clubes de café — o Le Nez vai elevar dramaticamente sua capacidade de interpretar o que está na xícara. Ele transforma a experiência de “isso é gostoso” para “isso tem notas cítricas com fundo de especiarias e acabamento floral”. É outro nível de apreciação.

Se você está começando agora no café especial, o investimento talvez não faça sentido imediato. Mas o treinamento olfativo, sim. Comece prestando atenção nos cheiros do dia a dia. Experimente frutas, especiarias, flores, temperos. Faça exercícios com a Roda de Sabores. E, quando sentir que está pronto para aprofundar, o Le Nez estará lá.

O que o Le Nez du Café comprova, acima de tudo, é que as notas sensoriais escritas no pacote do seu café não são fantasia. Não é aditivo, não é aromatizante, não é marketing. É ciência, terroir, variedade, processo e torra — tudo trabalhado para aflorar aromas que já existem naturalmente no grão. Cabe a nós treinar o olfato para ler essa história inteira.

E se você ainda tem dúvida de que esse treinamento funciona, lembra do nosso teste: 5 de 7 acertos às cegas. Com prática, paciência e curiosidade, qualquer pessoa consegue refinar a percepção sensorial. É experiência de vida — e cada xícara é uma nova página.

Conte pra gente nos comentários: qual foi a nota sensorial mais difícil que você já tentou identificar num café? E se você já usou o Le Nez du Café, compartilha a experiência! A conversa sobre sensorial nunca termina e a gente adora continuar aprendendo com vocês

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Gabriel Guimarães

Iniciou no universo dos cafés ao conhecer Hélcio Júnior, diretor da Unique Cafés, que o convidou para se tornar barista ao perceber a facilidade em comunição e paixão, ao ser atendido por ele em um bar onde o mesmo atuava como bartender.

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